O BRASIL DA INOVAÇÃO Nos últimos dez anos, surgiram no país pólos de tecnologia da informação com relevo internacional. Um estudo mostra onde eles estão e o que produzem. Revista Veja, Edição 2081- 08/10/2008 O Brasil costuma ser lembrado como um grande produtor de soja, açúcar, aço. Nem só por suas commodities, no entanto, o país tem espaço no mercado internacional. A tecnologia, área em que até pouco tempo atrás os brasileiros nada tinham a oferecer, começa a despontar. Os avanços recentes são notáveis – fenômeno que uma nova pesquisa ajuda a dimensionar. Segundo o levantamento, nos últimos dez anos surgiu no país um eficiente conjunto de pólos de tecnologia da informação (TI), um dos setores vitais da economia contemporânea. Eles estão unidos pelo mesmo critério de excelência: todos têm a apresentar uma ou mais invenções de natureza diferente, pelas quais sobressaem fora do país. São sete pólos que, juntos, faturam 4 bilhões de dólares por ano, exportam para setenta países e abrigam 3 700 Ph.Ds. esparramados por 1 000 empresas de tecnologia da informação. Esse circuito, ao qual lançou luz o trabalho conduzido pelo Ministério de Ciência e Tecnologia, reúne, ainda que em escala modesta, o básico da fórmula que funcionou no Vale do Silício, meca da TI mundial: boas universidades, alta concentração de cérebros, alívio nos impostos para as empresas de tecnologia e uma cultura que valoriza a inovação. Resume o especialista Antenor Corrêa, coordenador da pesquisa: "Nesses pólos, as pessoas conseguiram se tornar competitivas produzindo aquilo que mais adoram: tecnologia". É verdade que os números absolutos ainda não deixam o Brasil em boa situação na comparação internacional. O país responde por apenas 2% do faturamento global do setor e ocupa a décima segunda posição no ranking mundial de tecnologia da informação. O que chama atenção no caso brasileiro é o rápido crescimento da área de TI. Enquanto ela aumenta no mundo ao ritmo de 6% ao ano, no Brasil a velocidade beira os 12%, sobre um faturamento anual de 22 bilhões de dólares. Dois fatores explicam isso. Com o avanço da economia, as fábricas brasileiras, até recentemente pouco automatizadas, passaram a demandar serviços de TI em busca de maior produtividade. Um segundo diferencial do país, este em relação aos demais emergentes, diz respeito ao seu poder de atrair multinacionais – sobretudo porque os salários dos especialistas brasileiros em TI são 10% mais baixos do que a média mundial. Além de disseminarem conhecimento técnico, as empresas estrangeiras fomentam a criação de outras, locais, para lhes prestar serviços. Diz Roberto Moschetta, diretor de um dos pólos apontados pela pesquisa, em Porto Alegre: "Sem a Dell, não teríamos a mesma cultura tecnológica". Primeira das multinacionais a se instalar lá, em 2003, a Dell é uma das maiores fabricantes de computadores do mundo. Parte do atraso brasileiro na área de TI se deve, justamente, ao fato de as empresas estrangeiras, tradicionalmente na dianteira das pesquisas, terem custado a aportar no país. O que as espantava era a Lei de Informática da década de 70. Ela proibia as multinacionais de fabricar computadores no Brasil, restrição que foi derrubada apenas depois de vinte anos, em 1992. A isso, soma-se a demora brasileira em formar mão-de-obra especializada. A primeira faculdade de ciência da computação no país apareceu em 1968, em Campinas, e vivia às moscas, tal era o marasmo do setor. Dez anos atrás, enquanto a produção nacional era irrisória, a Índia já despontava como forte fornecedora de serviços de TI e, no Vale do Silício, criava-se a metade de todas as grandes inovações tecnológicas do mundo. Ao ritmo do crescimento atual, a previsão é que o Brasil alcance em três anos a quinta posição no ranking mundial de tecnologia da informação, segundo relatórios internacionais. Para isso, é preciso formar mais gente especializada – o déficit de mão-de-obra chegou a 30 000 pessoas neste ano – e aumentar o nível de conhecimento de inglês, idioma falado por apenas 1% da população. Pesa em favor das previsões otimistas uma recente medida tomada pelo governo federal, que reduziu à metade os impostos sobre as exportações de TI. O mesmo que fez a Índia quinze anos atrás, antes de se tornar a maior exportadora dessa tecnologia no mundo. Os sete pólos citados nesta reportagem têm ainda dimensões modestas, mas revelam que já surge, no Brasil, uma nova cultura. Ela está presente em lugares onde tecnologia é o assunto à mesa do restaurante e a razão para milhares de jovens Ph.Ds. vararem madrugadas em laboratórios. É também o que passou a atrair estrangeiros para cenários pouco turísticos. Em todas essas cidades brasileiras, eles já encontram inventos impossíveis de achar em outra parte do mundo. É, sem dúvida, um bom começo. Onde fica o pólo Tecnologia ao som de forró O SERTÃO NA INTERPOL Alexandre Moura: sua empresa vende softwares para as polícias do mundo todo O que faz indianos, franceses e americanos escolher Campina Grande, cidade encravada no sertão da Paraíba, para viver? O engenheiro americano Hunter Hagewood, 33 anos, que em 2003 chegou lá com a mulher e os dois filhos, explica: "Moramos num lugar onde sobram empregos de alto nível e temos a chance de experimentar uma autêntica vida brasileira". Hagewood e os outros estrangeiros podem não demonstrar desenvoltura ao dançar forró e invariavelmente consideram a buchada de bode, prato típico da região, "muito estranha" – mas estão perfeitamente integrados à rotina da cidade. A presença deles é decisiva para que Campina Grande tenha se tornado o lugar do país com o maior número proporcional de Ph.Ds. – um para cada 669 habitantes, cinco vezes a média brasileira. Além de terem boas chances de emprego, esses doutores vivem no meio do sertão porque ali está a Universidade Federal de Campina Grande, uma das melhores do mundo em TI. Figura entre as poucas dedicadas a avançar na área de computação quântica, tecnologia que vai transformar os computadores em máquinas infinitamente mais rápidas e capazes. Tudo no pólo gravita em torno da universidade, que não apenas fornece mão-de-obra bem preparada, como participa, ela própria, das pesquisas desenvolvidas pelas empresas. Vinte anos atrás, foi da faculdade a idéia de lançar uma incubadora para ajudar os estudantes a montar seus negócios de TI. O pólo aumentou com os incentivos fiscais concedidos pelo governo estadual. A Light Infocon tornou-se uma das maiores empresas da região. Foi lá que se originou uma das invenções que mais atraem para Campina Grande grupos estrangeiros interessados em comprar. Trata-se de um software de processamento de dados que já ajuda em investigações conduzidas pela Interpol e pelas polícias de mais seis países. Resume o dono da empresa, Alexandre Moura, 47 anos: "As pessoas vinham para o sertão ver festa de São João. Hoje, buscam inovação". Light Infocon Tecnologia S/A |